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O jogo bonito ainda é brasileiro?

Nos últimos anos, o futebol brasileiro passou a registrar mudanças que, isoladamente, podem parecer pontuais, mas que, quando observadas em conjunto, revelam outra coisa.

O Campeonato Brasileiro de 2025 terminou com mais de 150 jogadores estrangeiros na Série A, segundo dados consolidados por plataformas como Transfermarkt.
Isso representa algo próximo de 25% do total de atletas da elite nacional, proporção inédita na história da competição.

Um número que, aliás, cresce de forma consistente.
Em 2013, eram pouco mais de 30 estrangeiros na Série A.
Em uma década, houve um aumento superior a 300%.

Contudo, trata-se de uma mudança que não é apenas quantitativa.
Ela foi institucionalizada.

A Confederação Brasileira de Futebol – CBF – ampliou, ao longo dos últimos anos, o limite de estrangeiros relacionados por partida. No início eram três, depois passou para cinco, subiu para sete e, mais recentemente, chegou a nove atletas por jogo.

Ou seja, não se trata de um fenômeno espontâneo.
Claramente o sistema foi adaptado para absorvê-lo.

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Uma mudança que deixou de ser exceção

Mas o movimento não se limita ao elenco de jogadores.

Em 2023 e 2024, o Brasil passou a registrar uma presença crescente de técnicos estrangeiros na Série A, algo historicamente raro.
Clubes como Botafogo, Flamengo, Vasco, Cruzeiro e outros passaram a alternar ou priorizar profissionais de fora do País.

Na verdade, até mais do que isso.
Pela primeira vez na história, a própria Seleção Brasileira passou a ser dirigida por um treinador estrangeiro, rompendo uma tradição que atravessou mais de um século.

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Esse dado, por si só, já seria suficiente para indicar uma inflexão.

Mas ele ganha outro peso quando observado ao lado de outro indicador.

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O País ainda exporta, mas já não apenas isso

O Brasil continua sendo o maior exportador de jogadores do mundo.

Segundo relatório anual da FIFA, o país lidera há anos o número de transferências internacionais de atletas, com mais de 1.200 jogadores brasileiros atuando no exterior simultaneamente.

Em 2023, foram mais de US$ 1,1 bilhão em receitas com transferências, de acordo com o relatório “Global Transfer Report”.

É evidente que o Brasil segue fornecendo talento para o mundo.

Todavia, ao mesmo tempo, passa a importar cada vez mais peças para dentro do seu próprio sistema.

Essa combinação — exportar talento e importar estrutura — não é trivial.

Ela indica uma transformação de papel.

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O clube como parte de uma rede

Essa mudança se torna ainda mais evidente quando se observa a alteração da propriedade dos clubes.

Desde a criação do modelo de SAF, em 2021, o futebol brasileiro passou a receber investimentos diretos de grupos estrangeiros.

Com isso, o Brasil passou a integrar redes globais de clubes. São vários os casos que mostram isso. Exemplos como:

  • Eagle Football Holdings (Botafogo)
  • 777 Partners (Vasco, posteriormente em crise)
  • City Football Group (Bahia)
  • Red Bull GmbH (Bragantino)

Essas redes operam sob uma lógica específica que se basea em três pontos. São eles:

  • circulação de jogadores entre clubes do mesmo grupo
  • padronização de metodologias
  • decisões centralizadas fora do país

O clube deixa de ser uma unidade isolada e passa a ser um nó dentro de um sistema maior.

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Quando o clube vira plataforma

Esse modelo, conhecido como multi-club ownership, vem se consolidando na Europa há mais de uma década e carrega a consequência importante de que as decisões esportivas deixam de ser exclusivamente locais.

Contratações, estilos de jogo, escolhas técnicas e até estratégias de formação passam a obedecer a uma lógica de portfólio.

O jogador não é apenas reforço.
É ativo.

O clube não é apenas time.
É plataforma.

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O impacto chega ao campo

Quando esse modelo chega ao Brasil, ele não altera apenas a gestão.

Ele modifica o próprio campo.

A presença crescente de estrangeiros — jogadores e técnicos — deixa de ser um debate sobre qualidade e passa a ser uma consequência operacional.

Em um sistema globalizado, tudo vira global, o mercado, o recrutamento e a tomada de decisão.

Fonte: Donni Araújo

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