Artigo Opinião

O lápis, o papel e o saco plástico

Vivemos em uma sociedade de consumidores vorazes onde o que vale, para muitos destes, é a ostentação de bens materiais e da boa aparência. Digo isso porque, é comum ver pessoas tentando se comparar, ou tentando se aproximar do status social que a outra pessoa alcançou.

O blog do juiz do trabalho e empreendedor, Janguiê Diniz, disse em um certo artigo sobre a diferença entre sociedade de consumo e a sociedade consumista, então escolhi um excerto dele: “recentemente foi divulgado uma pesquisa que coloca os jovens de classe C pernambucana como os principais consumidores de serviços de telefonia, tanto na modalidade de telefonia fixa quanto móvel. Eles ocupam cerca de 25% desse mercado. Esses dados não seriam preocupantes se não fosse o fato desses mesmos jovens representarem a maior taxa de inadimplência do setor: quase 29%, pasmem! Com efeito, possuir carro do ano, notebook de última geração, TV Full HD e outros itens supérfluos para alguns, necessários para outros, não é mais um privilégio para os ricos. Muitas famílias podem ter tudo isso graças à vasta oferta de crédito existente no mercado. O problema grave está no acúmulo das dívidas, que acabam comprometendo mais da metade da renda familiar, gerando o que os especialistas chamam de ‘superendividamento’”.

O blogueiro me fez lembrar a minha infância, onde minha mãe comprava uma resma de papel ao maço – comum na década de 70 – e a costurava na máquina de costura de pedal e depois cortava ao meio transformando-o em dois cadernos e ainda escrevia na ‘capa’: Este caderno pertence ao aluno…

Não tínhamos recursos econômicos e, nem por isso, deixei de estudar em grupo escolar, depois em colégios e em faculdades públicas, apesar do pouco poder aquisitivo, mantínhamos a dignidade e a sobriedade de que os supérfluos passaríamos sem eles. E que tanto fazia ter o famoso caderno “de doze matérias” ou o caderninho de papel ao maço, a lapiseira nº 7 (lançamento naquela década) ou o lápis de tabuada com borralha branca na ponta, ou mesmo ter a mochila de couro (ou de tecido) ou levar seu material ‘num’ saco plástico de arroz, o que verdadeiramente importava a minha família era formar o cidadãozinho capaz de discernir entre o que me caberia e o que veria na grama verdinha do vizinho de minha casa.

É necessário que nós, como sociedade, tenhamos o bom senso da vida, e reflitamos que não se pode dar o passo maior do que as pernas alcançam, pois o tombo, literalmente, está garantido, por isso, sejamos mais coerentes e conscientes com nós mesmos.

Luiz Galvão é jornalista, escritor e presidente da Academia Canedense de Letras.

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