União Europeia promete que resposta às ameaças de tarifas de Trump será “proporcional e unida”

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A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu nesta terça-feira (20) que a resposta do bloco às reiteradas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envolvendo a Groenlândia e a imposição de tarifas sobre países europeus será “inabalável” e “proporcional”.
“Mergulhar em uma espiral descendente só ajudaria os próprios adversários que ambos estamos tão empenhados em manter fora do cenário estratégico. Portanto, nossa resposta será inabalável, unida e proporcional”, afirmou von der Leyen em discurso durante encontro das elites globais em Davos, onde ocorre o Fórum Econômico Mundial.
No momento, os europeus avaliam um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros, cerca de R$ 581 bilhões, em importações dos Estados Unidos. As medidas poderiam entrar em vigor automaticamente em 6 de fevereiro, após o fim de um período de suspensão de seis meses.
Outra opção em estudo é o acionamento do Instrumento Anti-Coerção (ACI), nunca utilizado até agora. O mecanismo permitiria limitar o acesso a licitações públicas, investimentos ou atividades bancárias, além de restringir o comércio de serviços, setor em que os Estados Unidos têm superávit com o bloco, incluindo serviços digitais.
A União Europeia deve realizar uma reunião nesta quinta-feira (22), em Bruxelas, para discutir qual resposta será adotada diante das ameaças de Trump.
Na segunda-feira, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, afirmou que uma eventual reação europeia deve se limitar à criação de um “temido grupo de trabalho europeu” e disse não acreditar em uma resposta rápida e contundente. “Imagino que eles formarão primeiro o temido grupo de trabalho europeu, que parece ser sua arma mais contundente”, comentou Bessent em Davos.
Nesta terça-feira, Trump voltou a afirmar que não abrirá mão da intenção de vincular a Groenlândia aos interesses americanos. “A Groenlândia é imperativa para a segurança nacional e global. Não há como voltar atrás”, escreveu em sua rede social Truth Social.
Bessent também minimizou a possibilidade de que um novo conflito comercial entre Estados Unidos e União Europeia afete o custo de vida dos americanos. “As tarifas foram o cão que não latiu em termos de aumentos de preços”, disse, ao afirmar que a inflação avançou em ritmo menor do que o esperado.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, se ofereceu para atuar como mediadora nas negociações. Apesar de compartilhar alinhamento político e ideológico com Trump, Meloni criticou a ameaça do presidente americano de impor tarifas de 10% sobre importações de Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Reino Unido a partir de 1º de fevereiro.
“A perspectiva de tarifas mais altas para aqueles que contribuem para a segurança da Groenlândia é, na minha opinião, um erro, e obviamente não compartilho dessa posição”, afirmou Meloni no domingo (18). “Conversei com Trump e disse a ele o que penso. Precisamos retomar o diálogo”, acrescentou.
Os ministros das Finanças da França e da Alemanha declararam nesta segunda-feira que as principais potências europeias não aceitarão chantagens e responderão de forma clara e unida às ameaças do presidente americano. “Alemanha e França concordam: não nos permitiremos ser chantageadas”, disse o ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, após reunião com o colega francês. Segundo ele, “o limite foi atingido”.
O pacote de 93 bilhões de euros
Uma das medidas avaliadas pela União Europeia é a retomada de um pacote de tarifas retaliatórias no valor de 93 bilhões de euros, aprovado em julho do ano passado, quando os Estados Unidos ameaçavam impor taxas de 30% sobre produtos europeus. Um mês depois, os dois lados chegaram a um acordo para reduzir a cobrança para 15%, e o pacote foi suspenso.
Com o novo anúncio de Trump, no entanto, a aplicação das tarifas voltou ao centro do debate. Segundo o jornal Financial Times, a UE estuda impor taxas sobre aviões da Boeing, automóveis, uísque bourbon, soja, maquinário, dispositivos médicos, produtos químicos, plásticos e equipamentos elétricos.
A escolha dos produtos levou em conta o fato de eles não serem essenciais para as exportações europeias, ao mesmo tempo em que podem causar impacto relevante na economia americana. “Como a lista de 93 bilhões de euros é muito ampla, o principal critério parece ter sido minimizar os impactos negativos para a UE”, afirmou Ignacio Garcia Bercero, ex-alto funcionário do comércio europeu.
O que é o Instrumento Anti-Coerção (ACI)
Adotado em 2023, mas ainda não utilizado, o ACI permite restringir o acesso de grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos e de outros países ao mercado europeu. O mecanismo é conhecido como a “bazuca comercial” da UE e considerado sua ferramenta mais poderosa.
Entre as medidas possíveis estão a revogação de direitos de propriedade intelectual, a imposição de tarifas sobre a Netflix ou filmes de Hollywood, o impedimento de empresas americanas em contratos de compras governamentais e até o fechamento dos mercados financeiros europeus para bancos dos Estados Unidos.
Há, no entanto, preocupação com os impactos dessas ações sobre a economia europeia e seus consumidores, especialmente pela falta de alternativas a fundos de capital de risco americanos e a serviços de computação em nuvem. Além disso, o processo é lento: a Comissão Europeia precisa investigar a suposta coerção, negociar com os Estados Unidos e obter aprovação de uma maioria ponderada dos Estados-membros, um trâmite que pode levar várias semanas.




