Política

Eleita com quase 2 milhões, deputada diz que feminicídio “não existe”

Foto:  Reprodução/Facebook

Eleita deputada estadual com quase 2 milhões de votos, Eduarda Campopiano (PL) chegará à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) tendo como uma de suas principais bandeiras justamente o combate ao feminismo. Aos 23 anos, a parlamentar já afirmou que o feminicídio “não existe”, posicionou-se contra a criminalização da misoginia e promete atuar para dificultar o acesso ao aborto.

Campopiano recebeu 1.956.238 votos nas eleições de domingo (4), tornando-se a candidata a deputada estadual mais votada de São Paulo em 2026. A votação foi a segunda maior da história para uma cadeira na Alesp, atrás apenas de Janaína Paschoal, que ultrapassou os 2 milhões de votos em 2018.

A ascensão foi rápida. Em 2024, Campopiano havia sido eleita vereadora de Praia Grande, no litoral paulista, com apenas 3.583 votos. Dois anos depois, multiplicou exponencialmente seu eleitorado e conquistou uma cadeira na maior Assembleia Legislativa do país.

“Eu não acho que feminicídio seja algo que exista”

A oposição ao feminismo ocupa posição central no discurso político de Campopiano. Ela própria já se apresentou como “a maior inimiga das feministas de São Paulo”.

Uma das declarações que mais provocaram repercussão ocorreu durante um debate com a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL), quando a então vereadora discutia uma proposta de criminalização da misoginia.

“Eu não acho que feminicídio seja algo que exista”, afirmou Campopiano.

A parlamentar defende que crimes desse tipo possam ser tratados como crimes passionais. Ao mesmo tempo, afirma ser favorável à existência de agravantes quando um homem utiliza sua superioridade física para agredir uma mulher, mas sustenta que a regra deveria ser aplicada também a outras situações semelhantes.

O feminicídio, porém, é uma categoria prevista na legislação brasileira para homicídios de mulheres motivados por violência doméstica e familiar ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

“Sou antifeminista. E não vou dar para trás”

Campopiano não trata o antifeminismo apenas como uma posição pessoal. O tema se tornou uma das principais marcas de sua atuação política e de sua presença nas redes sociais.

“Sou antifeminista. E não vou dar para trás”, declarou durante um debate.

Em outra ocasião, apresentou-se de forma ainda mais explícita: “Sou do PL, sou uma mulher conservadora, antifeminista”.

Depois de conquistar quase 2 milhões de votos, Campopiano afirmou à Folha de S.Paulo que pretende manter esse posicionamento durante seu mandato na Alesp.

“A guerra tá só começando”, disse ao falar sobre o confronto político que pretende travar com parlamentares feministas.

A deputada eleita também rejeita a ideia de que conquistas individuais de mulheres devam ser atribuídas ao movimento feminista.

“Todo mérito que qualquer mulher conquista, as feministas tentam usurpar para elas. Eu discordo disso, eu acredito que o mérito é individual”, afirmou.

Aborto também será alvo do mandato

O aborto é outra das pautas que Campopiano pretende priorizar na Assembleia Legislativa.

A deputada eleita defende a vida desde a concepção e diz que pretende atuar para que mulheres desistam de interromper uma gravidez. Também se posiciona contra propostas de parlamentares feministas que considera “absurdas”.

Entre os exemplos citados por ela está a proposta de criminalização da misoginia, tema que tramita no Congresso Nacional.

Embora Campopiano vá exercer um mandato estadual, e mudanças na legislação penal sejam competência do Congresso, ela afirma que pretende usar sua atuação política para combater o feminismo e pautas relacionadas ao movimento.

Armas para mulheres

Nem todas as propostas de Campopiano relacionadas às mulheres envolvem retirar ou rejeitar políticas específicas. Na área de segurança, por exemplo, ela defende que mulheres tenham acesso ao porte de armas de fogo como instrumento de proteção.

A parlamentar argumenta que uma mulher armada teria melhores condições de se defender de situações de violência doméstica e urbana.

Campopiano também se posiciona contra o reconhecimento da prostituição como profissão e contra políticas de cotas raciais.

Declaração sobre feminicídio provoca reação

As declarações da deputada eleita sobre feminicídio ganharam nova repercussão depois das eleições.

Nesta segunda-feira (5), a jornalista Adriana Araújo, âncora do “Jornal da Band” e da BandNews FM, se emocionou ao comentar as posições da parlamentar.

A apresentadora classificou como “gravíssima” a declaração de Campopiano sobre a inexistência do feminicídio e argumentou que esse tipo de discurso ignora a realidade enfrentada por vítimas de violência contra a mulher.

“Enquanto ela repete esses bordões que viralizam nas redes sociais e nos grupos de ódio às mulheres, mulheres reais estão sentindo dor na pele”, afirmou Adriana.

A jornalista também destacou que movimentos organizados por mulheres participaram historicamente da conquista de direitos políticos que hoje permitem que Campopiano ocupe um cargo eletivo.

Das redes sociais à votação histórica

Maria Eduarda Campopiano Monteiro nasceu em Campinas, em 22 de julho de 2003, e começou a produzir conteúdo político nas redes sociais aos 18 anos.

Antes de disputar eleições, participou de programas de debate e integrou equipes de comentaristas. Em 2024, concorreu pela primeira vez a um cargo público e foi eleita vereadora de Praia Grande aos 21 anos.

Sua projeção nacional foi construída principalmente nas redes sociais, com conteúdos direcionados ao público conservador e discussões sobre feminismo, aborto, gênero, segurança pública e costumes.

Dois anos depois de conquistar 3.583 votos para vereadora, Campopiano chegou a 1.956.238 votos na disputa pela Alesp.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo