Economia

Empreendedores negros sofrem mais com dívidas do que brancos, diz pesquisa

Os empreendedores negros enfrentam maiores dificuldades financeiras e sofrem mais com o endividamento na comparação com os brancos. É o que mostra o estudo “#CoisaDePreto: Uma pesquisa sobre a real jornada dos afroempreendedores brasileiros”, divulgado pelo Google.

De acordo com a pesquisa, 21% dos entrevistados negros têm entre 60% e 90% do faturamento de seus negócios comprometidos com dívidas. Já a porcentagem de brancos com a mesma parcela comprometida é bem menor, de 14%.

A diferença é maior se considerados os que começaram o negócio há menos de 6 meses: 17% dos negros têm 100% do faturamento comprometido com dívidas, enquanto a porcentagem entre brancos é de 9%.

Quando observada a parcela de empreendedores com menos de 10% do orçamento comprometido, os brancos são maioria: 26%, frente a 19% no caso dos negros.

A gerente de marketing para pequenas e médias empresas no Google Brasil e fundadora do AfroGooglers, Christiane Silva Pinto, aponta o racismo estrutural como um dos principais causadores desse cenário. Segundo ela, a população negra tende a entrar no empreendedorismo por necessidade.

“É nessa estrutura que uma pessoa negra vai acumulando desigualdades ao longo da vida e é impelida para o empreendedorismo por sobrevivência. Já uma pessoa branca, com condições mais favoráveis, começa a empreender visando o sucesso, com visão de dono, com planos estruturados de negócios, com referências empreendedoras próximas do núcleo mais íntimo dela”, analisa.

Desigualdade financeira

De acordo com o estudo, a desigualdade financeira também se reflete nos planos para o negócio. Enquanto 40% dos negros classificam como um dos principais desafios as contas a pagar e outros 28% conseguir um financiamento, entre os brancos as proporções são de 31% e 21%, respectivamente.

“Os dados reforçam a necessidade e importância de o mercado continuar investindo em iniciativas para impulsionar o empreendedorismo no país, principalmente para os empreendedores negros, que continuam enfrentando muitas barreiras para empreender, muitas vezes ligadas ao racismo estrutural, como a maior dificuldade de acesso ao crédito”, explica Christiane.

Confira os principais pontos da pesquisa

  • 21% dos negros têm entre 60% e 90% do faturamento comprometido com dívidas, frente a 14% dos brancos;
  • entre os negros que começaram o negócio há menos de 6 meses, 17% têm 100% do faturamento comprometido com dívidas, enquanto a porcentagem dos brancos é de 9%;
  • 40% dos empreendedores negros têm contas a pagar como um dos principais desafios; entre os brancos, parcela é de 31%;
  • mais de 80% dos entrevistados – sejam negros (84%) ou brancos (85%) – apostam no aporte financeiro como forma de alavancar seus negócios.

A pesquisa também indica que, de forma geral, os empreendedores estão esperançosos e otimistas com a recuperação econômica, apesar dos desafios vividos durante o pico da pandemia. Ao todo, 73% dos entrevistados negros e 74% dos brancos acham que seus negócios vão crescer nos próximos meses.

“É importante reforçar que o empreendedorismo não livra o empreendedor negro do racismo: tendo crédito negado, ou há casos, inclusive, que donos de negócio negros têm dificuldade de serem reconhecidos como ‘donos’ em espaços como feiras de venda, por exemplo”, diz Christiane.

O estudo, encomendado pelo Google à empresa de pesquisa de mercado Offerwise, foi dividido em etapas qualitativa e quantitativa, e entrevistou 1.000 empreendedores de todo o Brasil, sendo 500 brancos e 500 negros (somando pretos e pardos que se identificam como afrodescendentes). O período de entrevistas foi de julho a outubro de 2022.

O que fazer?

Confira dicas da especialista Christiane Silva Pinto para o afroempreendedor:

  • Buscar investir em conhecimento e tecnologia, sejam treinamentos para si próprio ou para conhecer mais sobre as plataformas digitais que possam ajudar a alavancar o empreendimento.
  • Apoiar-se na comunidade – dica principalmente para as empreendedoras – seja para ter uma ajuda esporádica no negócio, para aprender uma técnica nova com uma pessoa do bairro ou até mesmo só para conversar sobre e dividir conhecimento, estar conectado às pessoas do entorno é bastante positivo.
  • Contar com o seu próprio repertório e experiência adquiridos em outros espaços. Muitas pessoas têm habilidades de vendas, por exemplo, mas não se dão conta disso porque vão surgindo outras demandas mais urgentes da vida.
  • Ter materiais de apresentação do negócio em mãos. Não é preciso esperar uma reunião com o gerente do banco para apresentar o negócio. Ter esses materiais já prontos facilita a aproveitar possíveis oportunidades.
  • Buscar negócios e instituições criadas por e para pessoas negras.

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