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Morre aiatolá Ali Khamenei líder supremo que exerceu poder ilimitado no Irã

 Foto: Office of the Iranian Supreme Leader/West Asia News Agency/Handout via REUTERS

Irã confirma neste sábado (28), a morte do líder supremo aiatolá Ali Khamenei, que comandou o Irã por quase quatro décadas com mão de ferro e reprimiu opositores com força. O presidente dos Estodos Unidos, Donald Trump, havia anunciado mais cedo que o líder supremo do Irã foi morto durante um bombardeio.

“É com profundo pesar e consternação que informamos que, após o ataque brutal do governo criminoso dos Estados Unidos e do regime abjeto sionista, o modelo de fé, luta e resistência, o líder supremo da Revolução Islâmica, sua eminência o grande aiatolá Ali Khamenei, alcançou a grande graça do martírio”, diz nota.

O texto classifica o episódio como um “crime” e diz que “marcará uma nova página na história do mundo islâmico e do xiismo”. “O sangue puro deste descendente do profeta fluirá como uma fonte impetuosa e erradicará a opressão e o crime americano-sionista. Desta vez, com toda a força e firmeza, e com o apoio da nação islâmica e dos homens livres do mundo, faremos com que os autores e mandantes deste grande crime se arrependam”.

O ataque coordenado pelos EUA e Israel, deixou ao menos 201 mortos e 747 feridos no território iraniano, segundo o Crescente Vermelho. Do total de 31 províncias da República Islâmica, 24 foram afetadas pelos ataques. Os números são referentes até a noite de sábado (28) no horário local. A informação foi repassada pelo porta-voz do Crescente Vermelho, Mojtaba Khaledi, em um comunicado publicado pela agência de notícias iraniana Isna.

Explosões também foram ouvidas em outras quatro cidades do Irã (Isfahan, Qom, Karaj, Kermanshah). As autoridades suspenderam o tráfego aéreo no país, enquanto serviços de telefonia e internet apresentam falhas graves, segundo jornalistas locais.

Um ataque de Israel deixou mais de 80 mortos em uma escola no sul do Irã, segundo a imprensa local. Crianças teriam sido mortas durante o ataque aéreo contra um colégio primário no sul do país à medida que o conflito se intensifica.

Em resposta ao ataque, forças iranianas lançaram mísseis contra Israel, que imediatamente fechou o espaço aéreo e declarou estado de emergência. Sirenes de alerta soaram no norte do país, embora não haja relatos de danos. Por precaução, escolas e prédios públicos em Jerusalém permanecerão fechados até a tarde de segunda-feira.

Quem era Ali Khamenei?

Ali Khamenei, cresceu em um Irã liberal e próximo ao Ocidente, e foi um dos responsáveis pelo nascimento de outro Irã: teocrático e que vê os Estados Unidos e Israel como inimigos a serem esmagados.

Ali Hosseini Khamenei nasceu em Mashhad, no nordeste iraniano, em 1939. Filho de um clérigo, começou cedo a vida religiosa. Aos quatro anos, já estudava o Alcorão, o livro sagrado do Islã.

Ao longo da vida, Khamenei se uniu a outros religiosos que condenavam a monarquia autoritária do Xá Heza Pahlevi e se opunham ao alinhamento do monarca aos Estados Unidos, a Israel e aos costumes ocidentais, como o uso de minissaia pelas mulheres.

Khamenei então se tornou discípulo do clérigo Ruhollah Khomeini, um dos maiores opositores do Xá e que liderou a Revolução Islâmica de 1979.

O novo regime teocrático deu uma guinada na política externa iraniana. De aliado, os Estados Unidos passaram a ser chamados pelos aiatolás de “Grande Satã”. Teerã também começou a pregar o fim do Estado de Israel e a financiar grupos extremistas como o Hamas e o Hesbollah.

Khamenei foi nomeado vice-ministro da defesa do novo regime. Em 1981, sofreu um atentado que comprometeu os movimentos da mão direita e, no mesmo ano, foi eleito presidente.

A atuação de Khamenei no comando do país na guerra Irã e Iraque, que durou oito anos, chamou a atenção de Khomeini. O aiatolá morreu em 1989. Em meio à comoção, uma surpresa: Ali Khamenei foi escolhido sucessor e o novo líder supremo do Irã.

Apesar das vitórias políticas na década, Khamenei não era considerado favorito à sucessão, porque não tinha participado ativamente da Revolução Islâmica.

O aiatolá Ali Khamenei fez jus ao título de líder supremo. Reprimiu diversas ondas de protestos, perseguindo, prendendo e matando opositores ao regime.

Em 2009, esmagou a chamada “Revolução Verde”, que começou como um movimento de protesto à reeleição do ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Em 2022, nova pressão. A morte da jovem Mahsa Amini, sob custódia da polícia depois de ser presa por usar o véu islâmico de forma incorreta, provocou novas manifestações — que mais uma vez foram reprimidas com violência pelo regime.

No início de 2026, a oposição acusou o governo de matar até 30 mil pessoas que protestaram desde dezembro contra uma súbita desvalorização do rial, a moeda iraniana.

Apesar da repressão, as manifestações contra o regime só cresceram, com multidões gritando “morte ao líder supremo”.

Sessenta por cento da população iraniana nasceu depois da revolução islâmica e boa parte já não se identifica com o autoritarismo dos aiatolás, tanto na política quanto nos costumes.

Nota do gabinete de governo do Irã

“É com profundo pesar e consternação que informamos que, após o ataque brutal do governo criminoso dos Estados Unidos e do regime abjeto sionista, o modelo de fé, luta e resistência, o líder supremo da Revolução Islâmica, sua eminência, o grande aiatolá Ali Khamenei, alcançou a grande graça do martírio.

O sucessor justo de Khomeini, que por mais de 37 anos de liderança sábia assumiu a vanguarda e a verdadeira liderança da frente do Islã, marcou com sua coragem exemplar e fé inabalável um novo capítulo de governança na história islâmica. Até o último momento de sua vida abençoada e histórica, ele liderou a nação islâmica contra a descrença, a tirania e a arrogância.

O mártir glorioso, grande aiatolá Ali Khamenei, foi o modelo de sacrifício e resistência da era atual — o ‘Imam das Promessas Verdadeiras, o Imam da Esperança e da Autoridade’ — nas mentes dos homens livres, oprimidos e combatentes do mundo. Ele permanecerá para sempre eterno nos corações das nações ao lado do nome de ‘Khomeini, o Grande’.

Sua abrangência e domínio das ciências contemporâneas, sabedoria, visão de futuro, fé pura, sinceridade nas ações, vontade de aço, crença profunda em suas palavras e objetivos, coragem inigualável, vasto conhecimento religioso, alma gentil e pura, e esperança e confiança no Senhor Todo-Poderoso foram características marcantes deste grande personagem, raramente encontradas em outros líderes políticos.

O Gabinete do Governo da República Islâmica do Irã expressa suas condolências por esta grande perda a Sua Santidade Baqiyatallah al-A’zam, à nobre nação do Irã, à grande nação islâmica e a todos os homens livres do mundo. Em solidariedade ao povo resiliente do Irã, declara 40 dias de luto nacional e 7 dias de feriado público.

Este grande crime jamais ficará sem resposta e marcará uma nova página na história do mundo islâmico e do xiismo. O sangue puro deste descendente do profeta fluirá como uma fonte impetuosa e erradicará a opressão e o crime americano-sionista. Desta vez, com toda a força e firmeza, e com o apoio da nação islâmica e dos homens livres do mundo, faremos com que os autores e mandantes deste grande crime se arrependam.

Nosso querido Irã, com o apoio da vitória divina, unido em uma só voz e um só coração, atravessará este difícil caminho com orgulho; pois Deus está à espreita de nossos inimigos opressores e é o ajudador dos crentes e oprimidos.”

O que disse a agência estatal iraniana Fars

“O líder supremo da Revolução Islâmica foi martirizado em seu local de trabalho, na Casa da Liderança (Beit Rahbari). No momento do martírio, ele estava cumprindo seus deveres e presente em seu escritório; este ataque covarde ocorreu nas primeiras horas da manhã de sábado. Os meios de comunicação ligados ao regime sionista e à reação regional alegaram repetidamente que, por medo de assassinato, o líder da revolução vivia em um local seguro e escondido. Seu martírio em seu local de trabalho provou, mais uma vez, a falsidade dessas alegações e da guerra psicológica do inimigo, demonstrando que ele sempre esteve entre o povo e em seu posto de responsabilidade, resistindo destemida e corajosamente contra a arrogância [imperialista].”

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