Beleza acima de tudo

A busca pela beleza física é algo que mexe com as questões emocionais de alguns cidadãos. Exemplos não faltam, pois lá no subconsciente tem sempre um incômodo pelo que se é, e pelo que se vê no reflexo do espelho. Uma hora é o queixo alongado, a orelha de abano, os seios pequenos demais, as panturrilhas finas e sem definição e apor aí vai. Essa espécie de culpa beira a depressão e ansiedade, ronda a cabeça daquele que quer a juventude eternizada a todo o custo, não importando a que preço pagará no final de cada procedimento, mesmo pelo risco de morte.
Relendo a mitologia grega encontrei o Complexo de Narciso, com sua autoadmiração e vaidade, onde se é evidenciado ao padrão psicológico caracterizado pela busca constante de validação do que se quer ser: belo e jovem. Mas no fim, Narciso morre afogado ao se apaixonar por sua própria imagem refletida na água, incapaz de se afastar de sua vaidade. E isso me preocupa bastante.
Essa procura pela beleza ideal, leva parte destes pacientes a não observar os riscos que correm quando entram em alguns consultórios e salas cirúrgicas sem qualquer higienização e estrutura. Às vezes ele só deseja levantar as pálpebras, a famosa blefaroplastia, e acaba saindo de lá com uma lista de quase dez itens para analisar em casa e tomar uma decisão à qual já está tomada a tempos, afinal o preço é convidativo e ainda parcelável.
Essa norma pela beleza irretocável, é um conceito que vem da estética da arte, mas que é usado para refletir a como se deve parecer um homem ou uma mulher em determinado período para ser considerado bonito. Esse cânone foi alterado com o passar do tempo, ou seja, tornou-se uma construção social e não algo natural. O resultado, em alguns casos, são pessoas com lábios e queixos extremamente deformados, bustos turbinados e glúteos totalmente desproporcionais ao corpo, a lista é muito longa.
Porém, existem sérios profissionais que além de cirurgiões plásticos, auxiliam os pacientes a terem uma certa cautela e reverem o procedimento que seja em uma mudança mais natural possível, assim evitam que estes mesmos se sintam pressionados a parecer com o mundo do espetáculo e, em alguns casos, submetidos as loucas dietas, procedimentos bizarros e desnecessários buscando se enquadrar em padrão de beleza assustadora. Por isso, deve-se levar em conta a famosa máxima: menos é mais. Afinal a beleza é passageira, para que não nos confundam com nossos netinhos, jovens, belos e distribuindo colágeno.

Luiz Galvão é jornalista, escritor e presidente da Academia Canedense de Letras.


