Artigo Opinião

AIDS, Covid-19 e os novos hábitos.

Nos tempos da pandemia e de isolamento social tanto falado até hoje, surgiu uma
questão bastante intrigante: o que fazíamos para passar as horas estando dentro de
nossas casas com bastante tempo de sobra? No início, tudo era novidade e as
descobertas, boas ou ruins, acontecendo quase que naturalmente para uns e
forçadamente para outros.
Estar em casa nunca foi ruim, o problema era não poder sair dela. É a partir daí que, o
que era para ser relaxante, tranquilo e até mesmo prazeroso, passou a ser objeto de
estudos por pesquisadores e institutos que observavam uma grande insatisfação por
parte da população economicamente ativa que, de uma hora para outra, passou a ser
obrigada a se manter em casa para não ser contaminada pelo vírus da COVID-19.
Se voltarmos há quarenta anos, mais precisamente no início da década de 1980,
estávamos vivenciando o começo da pandemia mundial da AIDS, com um diferencial:
não havia a necessidade de isolamento social, todavia, o afastamento era disfarçado de
algumas desculpas para não ficar próximos de pessoas que havia a suspeita de estar com
‘peste gay’. Isso era cruel, para não dizer desumano, em ambas as pandemias, pois
pouco se tinha de conhecimento sobre os dois vírus.
Porém, nas duas situações o processo foi bem parecido. Era mais ou menos assim: após
passar a fase inicial do isolamento, começava a chegar à monotonia, a fadiga e como
consequência o estresse à flor da pele, pois com o tempo já não tínhamos mais
novidades para fazer dentro de casa, ou em encontros sociais e a impressão que se tinha
é que estas situações ficaram minúsculas, apertadas e até mesmo inóspitas.
Bem, no caso da Covid-19 para alguns casos, a internet se tornara uma grande aliada,
onde trazia dicas de como se manter ativo – corpo e mente – durante a fase em que
estávamos passando, lembrávamos: isso vai passar! E passou.
Já o caso da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida – AIDS, era um assunto do qual
ninguém queria falar, afinal de contas, havia um tabu: falar sobre a sexualidade humana,
e pior ainda falar sobre o contágio da doença entre homens que transavam com outros
homens.
Em um artigo científico, os doutores Breno de Oliveira Ferreira e André Luiz Machado,
da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) citaram: “[…] A aids, diferentemente da
covid-19, tem um longo percurso sociopolítico na nossa história. A sua última epidemia,
e a mais marcante, trouxe um conjunto de reações da cultura, da economia, da política e
da sociedade em si na formatação de uma nova proposta de compreensão do processo
saúde-adoecimento-cuidado, o que é essencial para o campo das políticas públicas. Não
é à toa que vários pesquisadores e pesquisadoras do campo da aids têm sido convocados
para atuarem nas pesquisas recentes da covid-19” […].
Em ambos os casos perdemos familiares, amigos e em muitas situações pessoas que
nem conhecíamos, mas os hábitos adquiridos forçadamente ou não destas épocas,
devem ser mantidos até hoje: é máscara no bolso e camisinha na hora ‘H’, se é que me
entendem. A ciência está aí para chancelar nossos novos hábitos.

Luiz Galvão é jornalista, escritor e presidente da Academia Canedense de Letras.

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