Análise: Se a guerra terminar, quando tudo voltará ao normal?

Por: Devid Goldman
Supondo que Estreito de Ormuz realmente seja reaberto, pesadelo logístico está prestes a se desenrolar; entenda em quatro passos o que deve acontecer
A guerra no Oriente Médio segue com desfecho incerto à medida que o vai e vem sobre a reabertura do Estreito de Ormuz continua.
Supondo que a guerra esteja próxima do fim, a pergunta lógica de qualquer pessoa que tenha abastecido o tanque de gasolina no último mês é: quando os preços voltarão aos níveis pré-guerra?
Não tão cedo. Quase certamente não este ano. Talvez nunca.
Muitas coisas precisam acontecer primeiro, e alcançar uma paz duradoura com um país que os Estados Unidos e Israel Bombardearamdurante semanas é apenas o começo.
“Não espere um retorno aos preços de antes da guerra”, disse Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US, à CNN Internacional.
O que acontece a seguir?
Supondo que o estreito seja realmente reaberto, um pesadelo logístico está prestes a se desenrolar. Entenda em quatro passos o que deve acontecer:
Primeiro passo: Desobstruir os gargalos do estreito
Isso vai levar muito tempo, já que os navios-tnques se movam quase tão rápido quanto você andar de bicicleta.
Primeiro, os cerca de 128 petroleiros retidos no estreito precisam sair, carregando cerca de 160 milhões de barris de petróleo, segundo a Capital Economics. Isso abrirá caminho para que petroleiros vazios entrem no estreito, carreguem e retornem.
De acordo com Victoria Grabenwöger, analista sênior de petróleo da Kpler, o retorno à capacidade total de trânsito de navios-tanque pode levar até três meses.
Etapa dois: Redução dos estoques
Navios vazios irão primeiro retirar petróleo dos armazéns que foram preenchidos – porque os produtores não tinham outro lugar para armazená-lo.
A boa notícia: as refinarias foram pragmáticas em relação ao armazenamento e nunca encheram completamente seus estoques. Isso deve reduzir parte do tempo que seria necessário para reiniciar as bombas. No entanto, estoques mais cheios do que o normal ainda atrasarão a retomada da produção de petróleo à capacidade total.
Etapa três: Reiniciar a produção
Os poços de petróleo de Oriente Médio foram amplamente desafivados durante a guerra. Retomar a produção não é como apertar um interruptor. É um desafio complexo de engenharia que envolve física avançada e trabalho árduo que pode durar várias semanas.
A produção precisará ser reiniciada – lentamente – para garantir que os reservatórios de petróleo bruto não entrem em colapso, o que exigiria novas perfurações e reparos substanciais. A água e o gás injetados nos poços precisam ser reequilibrados, o que é uma tarefa complexa.
Como os poços na região são grandes e próximos uns dos outros, a retomada da produção exigirá uma coordenação significativa entre empresas e países para garantir que a água injetada e a pressão do gás permaneçam consistentes em vários poços.
Quarta etapa: Realizar reparos
Diversas refinarias, produtoras de gás natural e algumas produtoras de petróleo foram danificadas durante a guerra. Algumas empresas petrolíferas afirmaram que os reparos na infraestrutura crítica danificada podem levar anos para serem concluídos.
Há muito petróleo para recuperar: a produção de 12 milhões de barris por dia de petróleo bruto e 3 milhões de barris de produtos petrolíferos refinados foi interrompida em todo o Oriente Médio – principalmente na ArábiaSaudita e no Iraque, de acordo com Kpler. Não é uma tarefa fácil.
As grandes questões
Tudo isso pressupõe que a guerra tenha terminado e que não haja mais perturbações no estreito. E todos sabemos o que acontece quando fazemos suposições.
As últimas semanas foram marcadas por muitas falsas promessas de paz, levando os investidores a manter os preços do petróleo em alta. O ceticismo persiste: apesar da queda preço do petróleo na sexta-feira de mais de 8%, o Brent continua acima de US$ 90 – cerca de US$ 20 a mais do que antes do início da guerra.
Os investidores acompanharão de perto o desenrolar da situação nas próximas semanas e meses para verificar se o Irã está realmente disposto a abrir mão do estreito – a carta na manga que utilizava para maximizar sua influência econômica sobre os Estados Unidos.
Em caso afirmativo, o Irã deixará de cobrar pedágio para a passagem de navios? O governo norte-americano continuará bloqueando o petróleo iraniano ou cederá a exigência do Irã de que o bloqueio seja suspenso como condição par paz?
Além disso, as empresas de navegação precisam se sentir seguras para realmente enviar seus navios pelo estreito.
As seguradoras aumentaram seus preços em milhares de pontos percentuais e podem não estar dispostas a oferecer cobertura acessível enquanto a situação permanecer precária. A Lloyd’s de Londres se recusou a comentar.
A Hapag-Lloyd, empresa alemã de navegação, considerou o anúncio da reabertura uma “boa notícia” e afirmou que “preferiria atravessar o estreito o mais rápido possível”, assim que suas questões de seguro e desembaraço aduaneiro fossem resolvidas.
Por outro lado, a gigante do transporte marítimo Maersk afirmou que não alterou suas orientações para as embarcações desde que Trump anunciou a reabertura do estreito, mas ressaltou que isso pode mudar conforme a situação se desenvolva.
“Os detalhes do acordo serão importantes”, disse Helima Croft, chefe global de estratégia de commodities da RBC Capital Market e ex-analista da CIA. “Se o Irã continuar a ter a palavra final sobre a passagem, algumas seguradoras e empresas de transporte marítimo podem hesitar em voltar a operar com tanta pressa.”
O que acontecerá com os preços do petróleo e do gás?
Os investidores tentarão testar um novo piso para o petróleo bruto – talvez perto de US$ 80 – mas não muito abaixo disso, disse Dan Pickering, fundador e diretor de investimentos da Pickering Energy Partners.
“Suspeito que haverá alguns problemas que tornarão este mercado muito instável”, disse ele.
O mercado futuro agora projeta que os preços do petróleo Brent ficarão em torno de US$ 77 até o final do ano – não retornando aos preços pré-guerra até 2029.
Historicamente, o Brent precisa estar na faixa de US$ 60 para que a gasolina custe US$ 3 por galão, observou Michael Green, estrategista-chefe da Simplify Asset Management. O mercado não prevê que isso aconteça antes de 2030.
Quanto mais tempo durar essa paz e quanto mais evidências surgirem de que a produção está sendo retomada, mais baixos poderão ficar os preços do petróleo.
Mas isso envolve muitos “ses”.
“É claro que nos sentiríamos mais confiantes na perspectiva de um acordo de paz se estivéssemos ouvindo sinais positivos de ambos os lados”, disse Thierry Wizman, estrategista global de câmbio e taxas de juros do Macquarie Group. “A confiança na recuperação do mercado, neste momento, exige confiança apenas em Trump.”
Com informações de Mitchell McCluskey, da CNN Internacional
O Irã ameaçou minar o estreito e, na sexta-feira, ordenou que os navios navegassem por uma rota designada – e somente se recebessem permissão para passar. Os navios podem não estar dispostos a assumir esse risco.
Nas próximas semanas, os navios-tanque poderão começar a testar o mar, por assim dizer, para garantir que as operações possam ser retomadas sem incidentes, afirmou Grabenwöger. As empresas provavelmente solicitarão escoltas navais e coordenação para garantir a segurança.


