Conflito de interesse: Regra é ignorada por médicos, e farmacêuticas investem em presentes

Indústria farmacêutica investe R$ 24 milhões com médicos em apenas um estado; transparência nacional é quase inexistente
Por Ed Wanderley
Pessoas bonitas, bem vestidas, empurrando malas e aguardando em consultórios médicos. Elas cumprimentam secretárias, trazem quitutes apetitosos, exibem sorrisos e fazem convites para que profissionais médicos discursem ou compareçam a congressos em destinos paradisíacos, regados a álcool, festas e até acompanhantes de luxo. Hollywood já fez você reconhecer facilmente este retrato. A relação entre representantes comerciais da indústria farmacêutica e profissionais de saúde já foi apresentada nas telas do cinema inúmeras vezes, sempre ilustrando escândalos de corrupção ou atentados à saúde pública, baseados em histórias reais que chocam por duas semanas, antes de entrarem no esquecimento coletivo.
Quando não há registros de mortes ou golpes financeiros, no entanto, o enredo é outro. Especialmente no Brasil, onde há espaço para a naturalidade. Os mesmos profissionais que prescrevem as novidades de mercado são, por vezes, contratados pela indústria farmacêutica. Outras vezes, recebem mimos que vão das tradicionais inscrições em congressos e viagens com despesas pagas incluídas até presentes para consultórios, como poltronas ou aparelhos de uso diário. Tudo dentro da lei, nada ilegal — e quase regular.
Desde março de 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) supostamente exige que todos os médicos brasileiros declarem, na plataforma CRM Virtual, eventuais conflitos de interesse relacionados à indústria farmacêutica. A exigência foi publicada no Diário Oficial a partir da Resolução 2386/24 e prevê que os médicos podem enfrentar processos disciplinares e até ter o registro cassado caso não deem transparência às contratações, como palestras, pesquisas ou consultorias, que tenham prestado às farmacêuticas.
As partes do “quase regular” e do “supostamente” encontram amparo na realidade prática em três pontos. O primeiro é que a norma rege que, antes de qualquer manifestação pública e até de entrevistas, os médicos apresentem seus conflitos de interesse – o que se mostra incomum, mesmo em transmissões de TV, rádio e ainda mais nas redes sociais. O segundo é que, a contragosto até de quem a propôs, a regra deixa de fora a exigência de transparência quanto a presentes pessoais ou profissionais recebidos pelos profissionais.
“O meu texto original tinha isso [exigência de declaração de tudo o que for recebido], mas foi retirado”, afirma Raphael Câmara, um dos 28 conselheiros do CFM e autor da proposta que norteou a resolução, que diz acreditar ser difícil que um nível mais duro de transparência venha a ser aprovado num futuro próximo. “Só se vier uma lei, se vier por outro caminho. […] Mas nada impede que, daqui a um ano, até com a pressão da mídia e pressão popular, isso venha a ser considerado”. O médico destaca, ainda, que, em sua avaliação, a falta de cuidados com o assunto dos presentes, congressos, jantares e outros “mimos” representa um problema mais significativo do que vem sendo percebido pela categoria. “De irrelevante não tem nada; a resolução, inclusive, é por isso. É um problema maior para o sistema público, porque você, hoje, tem uma pressão enorme dessas indústrias para que os medicamentos sejam incorporados ao SUS, né? Ficam dizendo que são as melhores coisas do mundo e se utilizam de porta-vozes de notório saber, respeitados pela sociedade – e muitas vezes é a imprensa que cria essas pessoas”, adiciona Câmara.
POR QUE ISSO IMPORTA?
A intrincada relação financeira entre a indústria farmacêutica e os médicos, evidencia como a falta de transparência e de fiscalização pode comprometer a imparcialidade das prescrições, o que impacta diretamente a saúde da população, deixando uma alerta aos pacientes sobre os possíveis incentivos por trás do crescimento exponencial nas vendas de canetas emagrecedoras.
O terceiro ponto impressiona pelo caráter oficial: literalmente quase nenhum médico cumpre a obrigação de realizar a declaração na plataforma nacional. No Brasil existem quase 600 mil médicos em atividade. Em 2025, apenas 94 profissionais cumpriram a exigência em todo o país, segundo o próprio conselho.
“A gente entende que muitos médicos ainda talvez não estejam cientes da lei”, avalia Câmara. Ele esclarece também que o CFM prevê punições pelo descumprimento de resoluções, que podem chegar até à cassação; no entanto, nenhum procedimento de fiscalização foi realizado para fazer valer a regra até o momento. Uma campanha de conscientização vem sendo planejada desde 2025 para que os conselhos regionais, presentes em todos os estados, realizem ações que informem os médicos sobre a exigência de declaração de conflitos de interesse, mas, até o momento, não há prazo de veiculação definido pelo órgão.
A resolução do CFM é o único dispositivo nacional para coibir a cooptação de médicos pela indústria farmacêutica e visa ampliar a transparência das transações econômicas e dos benefícios indiretos entre a indústria e os profissionais de saúde. Na prática, a norma é uma versão nacional, porém desidratada, de uma obrigação estadual em vigor em Minas Gerais, com adesão muito superior, ainda que não disponha de fiscalização relevante.
A plataforma DeclaraSUS reúne as doações e patrocínios de indústrias farmacêuticas a médicos e sociedades médicas e expõe, por tipo de benefício, os recebimentos dos profissionais de saúde do Estado, abrangendo desde despesas com alimentação até contratos particulares e até mesmo inscrições em eventos. O site é de acesso aberto à população e foi concebido em conformidade com as leis 22.440/16 e 22.921/18. Segundo o UOL, a indústria farmacêutica investiu R$ 200 milhões entre 2017 e 2024 apenas com médicos mineiros. Um em cada dez profissionais de saúde listados entre os beneficiados pela indústria farmacêutica no estado é de endocrinologia.

Canetas emagrecedoras: boom nos dois lados do “balcão”
De acordo com a Associação dos Distribuidores Farmacêuticos do Brasil (Abafarma), os medicamentos para emagrecimento e diabetes, incluindo os chamados “análogos do GLP-1”, dominam o mercado brasileiro e seguem em ascensão. São R$ 19,2 bilhões apenas entre setembro de 2024 e setembro de 2025, metade de tudo o que se vende hoje nas farmácias nacionais e uma dominância completa do top 5 dos remédios mais vendidos, segundo levantamento da IQVIA para a Abafarma. Os números não chocam quem observa a corrida que se formou no setor nos últimos dois anos.
Uma outra curva significativa no período, mais discreta, não é facilmente percebida. O mesmo DeclaraSUS, que exibe as doações recebidas por médicos, também serve de termômetro das tendências de mercado das companhias farmacêuticas. Desde 2017, o desembolso só cresce por conta de duas desenvolvedoras das chamadas “canetas emagrecedoras”, que detêm três dos cinco medicamentos mais vendidos no Brasil no ano passado – a Novo Nordisk, que comercializa a semaglutida sob as marcas Ozempic e Wegovy, e a Eli Lilly, que vende a tirzepatida sob o nome de Mounjaro. Juntas, as empresas declararam ter investido quase R$ 24 milhões para beneficiar ou contratar médicos apenas em um estado da federação: Minas Gerais, o único em que a declaração transparente é obrigatória.
Não é possível atestar correlação entre as duas curvas, ou uma relação de causa e efeito, apenas evidenciar seus comportamentos proporcionais e simultâneos. Segundo a Abafarma, o Brasil, que consumia 4,1 milhões de unidades de canetas emagrecedoras em 2021, passou para 7,3 milhões no ano passado, um crescimento de 78,3%. Enquanto isso, entre 2021 e 2024, ambas as empresas quase triplicaram o investimento em relacionamento com profissionais médicos. A Eli Lilly passou de investir R$ 586 mil em um ano para aplicar R$ 1,4 milhão em profissionais de saúde mineiros em 2024. A Novo Nordisk, no mesmo período, passou de R$ 1,4 milhão para R$ 3,9 milhões.
A Novo Nordisk se firmou entre os dez laboratórios que mais investem na relação com profissionais médicos em Minas Gerais nos últimos dez anos. Um dos esforços para a integração com profissionais é o programa Discussão de Caso Clínico, no qual a empresa aprova um estudo de caso elaborado por um médico convidado que tenha acompanhado pacientes com o uso da semaglutida, para que, durante um jantar, ele possa ter uma troca direta com pequenos grupos de três ou quatro outros profissionais, em geral endocrinologistas ou nutrólogos, sobre a experiência com os medicamentos. A interação entre os profissionais durante confraternizações pós-análises é publicada de forma recorrente em perfis de médicos nas redes sociais.

Procurada pela Agência Pública, a Novo Nordisk alegou que o programa discute “casos clínicos reais, anonimizados, trazidos pelos médicos” e se apresenta sob a crença de que a “capacitação de quem está na linha de frente é a forma mais responsável de contribuir para a saúde da população”. A companhia informa que “se trata de uma iniciativa de educação médica continuada, uma prática padrão da indústria e considerada essencial para a evolução da medicina e, consequentemente, para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes” e destaca que “nessas iniciativas não há contato algum da indústria com o paciente”.
Já a Eli Lilly, não deu retorno até a publicação.
A presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética, Marisa Palácios, lembra que, na década de 1970, representantes comerciais sequer eram autorizados a adentrar ambientes hospitalares, o que mudou a ponto de se tornar naturalizado na contemporaneidade. Ela avalia que o contato das indústrias com os profissionais e com o ambiente de pesquisa científica deve ser controlado, e que a discussão precisa ser levada a sério. “Essa relação interfere na forma como o médico atende o paciente e na pesquisa que realiza, e precisa ser controlada. É preciso que isso seja discutido no âmbito das publicações [científicas], das profissões e das instituições”.
Fonte: Agência Brasil



