Artigo Opinião

Os quadrúpedes, a corrida e o ‘totô’

É dada a largada e lá vem eles com toda a força e velocidade, os quadrúpedes, levantando a poeira adormecida há quatro anos. Não importa quem sejam os seus adversários, isso tão pouco importa agora, pois cada um deles têm a infinita certeza de que irá dominar e vencer, a famigerada corrida.

O que eles querem é vender a imagem de corredores fortes e vitais a quaisquer custos. No fim, eles ganharão de um jeito ou de outro, o que não falta é dinheiro acumulado das bravatas e negociatas na selva de pedra e de pessoas interessadas em suas vitórias.

Lembrando que o termo quadrúpede é considerado obsoleto na taxonomia científica. A ciência moderna descobriu que esses animais não formam um grupo evolutivo único ou com um ancestral comum direto. Eles pertencem a ordens biológicas completamente separadas. Contudo, se unem nesta época fingindo uma aliança para vencer a batalha, se é que me entendem.

Alinhados no início, passam pela plateia da arquibancada como foguetes rumo a lua, evitando um contato mais próximo. Primeiramente os imensos e favoritíssimos, elefantes africanos e suas longas pernas segurando em suas trombas malas de dinheiro para que, em caso de uma necessidade, dividam a propina com os seus fiéis escudeiros que o acompanham a muito tempo, e estes possam repartir com aqueles que o ajudarão a vencer, talvez. Porém, eles se assustam quando veem que os seus conterrâneos, os hipopótamos, estão se aproximando cada vez mais rápido.

A estratégia destes é simples, enquanto o seu adversário logo à frente perde tempo fazendo os seus pagamentos indevidos, este agora busca alinhavos com os excluídos do principal adversário, ou seja, a cada paradinha do elefante grandão, ele dá dois passos na dianteira. E assim, logo ultrapassará o seu oponente, é o que acredita.

Todavia eles esquecem que corre por fora, em desvantagem de tamanho, de peso e com as pernas curtas, a simpática brasileiríssima anta. Que agora tenta a todo o custo demonstrar simpatia, mas a cara não ajuda muito devido ao esforço feito até aqui. Só que esta, apesar de muito rouca tem um plano mais audacioso: persuadir de forma mais simples e menos mentirosa, àqueles que farão o julgamento de quem realmente merece ganhar esta batalha.

Em sentido figurado e coloquial, a palavra quadrúpede ou paquiderme, também é usada para descrever uma pessoa rude, grosseira, ignorante ou de inteligência lenta e limitada. Isto lembra alguém?

Pouco importa a esta altura, pois devido ao ritmo forçado em cruzar a fita de chegada, muitos destes acabam fazendo muita força e deixando as suas marcas pelo chão e cuidado para não escorregar, e coitado daqueles que vêm logo atrás, ficarão todo lambuzados e com mau cheiro dos seus oponentes da dianteira, mas afinal quem limpará todo este ‘totô’? Vamos saber somente no dia seguinte, a segunda-feira após a finalização da corrida.

Luiz Galvão é jornalista, escritor e presidente da Academia Canedense de Letras.

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