Troca de bilhete em presídio de SP deu origem a investigação contra Deolane

Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra. — Foto: Reprodução/TV Globo e Redes Sociais
A investigação que resultou hoje na prisão da influenciadora e advogada Deolane Bezerra teve origem na troca de bilhetes e manuscritos ligados ao PCC, apreendidos há sete anos em um presídio em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
Bilhetes apreendidos em 2019 levaram a abertura de três inquéritos policiais. A polícia descobriu detalhes da estrutura financeira do PCC e identificou operadores financeiros da facção. As informações foram apresentadas em coletiva de imprensa realizada na tarde de hoje.
Início da investigação tinha sido revelado pelo colunista do UOL, Josmar Jozino. Em 2024, a polícia revelou que um comparsa do irmão de Marco Herbas Camacho, o Marcola, pagava R$ 5.000 a Deolane.
Manuscritos foram encontrados com dois presos e continham ordens internas da facção. Além disso, bilhetes também mostravam contatos com integrantes do alto escalão do PCC e referências a ações violentas contra servidores públicos. Um dos bilhetes, encontrado na cela de Gilmar Pinheiro Feitoza, o Cigano, afirmava que “aquela mulher da transportadora já entregou tudo certinho até o endereço novo do Bizzoto”, ex-diretor de uma unidade prisional alvo de plano de atentado.
Tal menção levou a polícia a investigar transportadoras próximas à penitenciária. No inquérito, as autoridades identificaram Elidiane Saldanha Lopes Lemos, sócia da Lopes Lemos Transportes Ltda. Segundo a polícia, a apuração avançou a partir dessa transportadora e descobriu que a empresa não era apenas uma prestadora de serviços, mas uma “criação da própria facção”.
Bilhetes não mencionaram o nome de Deolane diretamente. No entanto, eles foram o pontapé inicial que permitiu às autoridades chegarem até ela em fases posteriores.
Deolane foi identificada como beneficiária de vultosos valores oriundos da transportadora. Segundo os autos, ela teria recebido valores da empresa, descrita pelas autoridades como criada para operar o “branqueamento de recursos ilícitos”.
Para os investigadores, ela era um “caixa do crime organizado”. Segundo as apurações, o dinheiro do crime era depositado na conta dela para se misturar com outros valores e ser devolvido em momentos oportunos.
“Deolane funciona como caixa do crime organizado. O dinheiro dela acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades ilícitas.” – Edmar Caparroz, delegado
A irmã dela, Daniele Bezerra, que também é advogada, afirmou que “tentam transformar suposições em verdades e manchetes em condenações”. Em publicação nas redes sociais, ela disse que a prisão nasce de alegações “cercadas de ilações, narrativas e perseguições”.
Fontes da Polícia Civil afirmaram que Deolane “sentiu o baque” ao descobrir que os mandados tinham relação com uma transportadora. Uma das maiores evidências de que ela tinha conhecimento da ação criminosa para a polícia é a inexistência de qualquer contrato, mesmo com a grande movimentação financeira.
Deolane não deve ser ouvida pela polícia hoje. Os delegados responsáveis pelo caso devem analisar os materiais apreendidos antes da oitiva da influenciadora.
Influenciadora foi encaminhada para a Penitenciária de Santana, na zona norte da capital, e deve ser realocada para o interior amanhã. Segundo a Polícia Civil, a expectativa é de que Deolane vá para Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, a mais de 600 km da capital.
Polícia Federal tinha planos de prender a influenciadora em Roma, onde ela estava até ontem. Segundo o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, os movimentos da influenciadora eram monitorados havia meses.
O Ministério Público teve conhecimento de que ela embarcou para a Itália em abril. Desde então, o nome dela foi incluído em sigilo em uma lista da Interpol e os órgãos nacionais articularam a operação para prendê-la.
Policiais federais e o promotor estavam em Roma hoje para fazer as prisões. “Se a Deolane estivesse aqui hoje ela seria presa inclusive às 11h da manhã da Itália, seis horas da manhã do Brasil”, afirmou.
A policia acredita que a volta da influenciadora para o Brasil um dia antes da operação foi uma coincidência. “Constatamos que hoje ela iria renovar o passaporte na Polícia Federal e foi esse o motivo do retorno dela”, disse o delegado Ramon Pedrão.
Justiça determinou bloqueio de R$ 27 milhões em nome da influenciadora
Influenciadora é investigada por receber recursos ligados ao PCC. As apurações apontam a influenciadora como parte do núcleo financeiro de um esquema de lavagem de capitais, operado pela cúpula da facção criminosa. A decisão para prender Deolane foi proferida pela 3ª Vara da Comarca de Presidente Venceslau.
As autoridades apontam que os repasses ocorreram em um contexto de “acerto” e “fechamento” financeiro. A investigação mostrou que os valores não foram transferidos como pagamento por serviços advocatícios ou qualquer outra contraprestação lícita.
A ligação de Deolane com o PCC seria intermediada por Everton de Souza. O homem é apontado como operador financeiro de Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola, e seu irmão Alejandro Camacho, irmão dele. Já presos, os dois também foram alvos da ação de hoje.
Movimentações financeiras de Deolane são incompatíveis com seus rendimentos declarados, segundo a polícia. A investigação destacou ainda que suas empresas apresentam características típicas de veículos de lavagem de dinheiro, como endereços fictícios em imóveis residenciais simples nas cidades de Santo Anastácio e Martinópolis, ambas em São Paulo, sem qualquer indicativo de atividade operacional real.
O relatório de investigação ressalta a ostentação pública de um padrão de vida elevadíssimo da influenciadora. Isso inclui veículos de luxo como Lamborghini e McLaren, além de aeronaves, o que segundo a polícia, é desproporcional às fontes de renda lícitas apuradas.
Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. A Justiça também determinou bloqueios financeiros de R$ 357,5 milhões e de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões.
No caso específico de Deolane, a Justiça bloqueou R$ 27 milhões em bens e valores atribuídos à influenciadora.
Celular apreendido revelou ligação com Deolane
Em 2021, a Operação Lado a Lado aprofundou as investigações e apontou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico e uso da transportadora como braço financeiro da facção criminosa.
Durante a operação, a polícia apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema. Segundo a investigação, o aparelho revelou detalhes sobre a lavagem de dinheiro realizada pela empresa Lado a Lado Transportes, também chamada Lopes Lemos Transportes.
Os investigadores afirmam que Ciro comprava caminhões, realizava pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e do irmão dele, Alejandro Camacho, além de administrar patrimônio em nome dos dois.
A partir da análise do celular, surgiu uma nova frente investigativa relacionada a conexões financeiras com Deollane Bezerra.
Segundo a polícia, imagens encontradas no aparelho mostram depósitos para contas de Deolane e de Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da organização criminosa.
A investigação sustenta que valores da transportadora eram destinados a Marcola, Alejandro e familiares por meio de contas ligadas a Everton e à influenciadora.
➡️ Marcola é apontado como chefe do PCC e está preso na Penitenciária Federal de Brasília. Ele foi notificado sobre a nova ordem de prisão preventiva.
Entre os familiares investigados estão:
- Alejandro Camacho, irmão de Marcola, que também está preso em Brasília e foi notificado sobre a nova ordem de prisão.
- Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola e apontada como intermediária nos negócios da família, está foragida na Espanha. Inicialmente, havia sido informado que Paloma tinha sido presa na operação.
- e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola e apontado como o destinatário do dinheiro lavado da família, também é alvo de mandado de prisão e estaria na Bolívia.


