Artigo Opinião

A semana de moda e o urucum.

Mal se inicia o ano e lá vem os convites aos desfiles de moda pelo mundo a fora. Todo ano é a mesma coisa: desfiles nas mecas da alta costura, exageros que beiram o insano. A cada virada dele há a necessidade de se provar qual tecnologia têxtil uma determinada grife vai apresentar na passarela, ou boicotar peles e debruns.

Aqui não é diferente, de um lado é São Paulo apresentando a sua semana que, em 2026, o Rio retomou esse frenesi também com a sua coleção de verão. Tudo glamuroso e ostensivo que chega até a irracionalidade, haja vista o disparate de choques de realidade – se, de um lado a glória do luxo, em um bairro classe média alta, do outro, o seu vizinho classe baixa, morando no barraco, que não tem nem o que comer.

Apresentar esse tipo de desfile não é exagerar demais, porém, acreditemos que tem que haver um bom senso de que a maioria da população não tem acesso a essas marcas, e principalmente, e muito menos não tem dinheiro para comprar tal produto. Além de não ter onde usar essas indumentárias, no seu dia a dia.

Pensando nisso, começa a surgir uma nova leva de estilistas preocupados em destacar a questão cultural, o simples de suas origens regionais, tais: Cintia Felix, Davis Lee, e o goiano Raphael Aquino, são um bom exemplo desta mudança de direção.

Lendo recentemente um recorte do jornal espanhol El Diario AR, com postagem em 14 de dezembro de 2025. me deparei com um texto que falava um pouco sobre esse tema tão peculiar no mundo, “Há uma tendência em colaborar e compartilhar saberes culturais de marcas independentes, trazendo uma linguagem universal que agencia diálogo intercultural, de patrimônio cultural e moda contemporânea. Com isso, misturar herança cultural e inovação a de se valorizar ainda mais a identidade cultural e das marcas locais”.

Ou seja, mostrar, nas passarelas pelo mundo a fora o que temos de melhor sem ter vergonha de mostrar a nossa cara, o nosso regionalismo, a nossa pluralidade. a volta da simplicidade, onde menos é mais.

E aí me vem a lembrança da minha mãe, que nos anos de 1970, tingia nossas roupas de cama e toalhas de banho, já desgastadas pelo longo tempo de uso, utilizando um produto bem conhecido a nós, o urucum, e no varal colocava durante o dia todas aquelas bandeirolas vermelhas que de longe se destacava no quarteirão onde morávamos. Reutilizar produtos regionais, do nosso diário é uma boa prova de que com pouco se faz muito, de forma simples e original.

Luiz Galvão é jornalista, escritor e presidente da Academia Canedense de Letras.

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