Política

Produtora contradiz Flávio Bolsonaro e nega recursos de Vorcaro para filme ‘Dark Horse’

Jim Caviezel como Bolsonaro em Dark Horse – Foto: Reprodução/Instagram

Após o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitir que o filme Dark Horse, que conta a história de seu pai, Jair Bolsonaro (PL), recebeu financiamento do banqueiro Daniel Vorcaro, a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa, afirmou em nota que a produção não recebeu “um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro”.

A empresa afirmou que a legislação norte-americana aplicável a operações privadas de captação no setor audiovisual impede a divulgação da identidade de investidores protegidos por acordos de confidencialidade. De acordo com a Go up Entertainment, essa proteção faz parte das regras de investimentos privados no mercado audiovisual e precisa ser respeitada pela produtora.

Ainda assim, a empresa declarou que, entre os mais de dez investidores do projeto, não há qualquer recurso vindo de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas ligadas ao banqueiro. A produtora também ressaltou que o filme foi estruturado por meio de mecanismos privados de financiamento, sem uso de recursos públicos.

“A produtora reafirma que o projeto cinematográfico Dark Horse foi estruturado dentro de modelo privado de desenvolvimento audiovisual, por meio de articulações, parcerias e mecanismos legítimos do mercado de entretenimento nacional e internacional, sem utilização de recursos públicos”, diz o texto da produtora.

Na nota, a Go Up ressaltou que conversas e tratativas com potenciais investidores não significam, necessariamente, efetivação de aportes financeiros ou participação societária. A empresa repudiou tentativas de vincular o longa a fatos externos sem comprovação documental, financeira ou contratual.

O posicionamento da produtora acontece após reportagem divulgada pelo site Intercept Brasil mostrar mensagens e áudios em que Flávio Bolsonaro cobrava pagamentos relacionados à produção do filme. O senador admitiu que pediu recursos a Vorcaro para a conclusão do projeto, alegando atraso em parcelas de patrocínio privado.

O deputado federal Mário Frias (PL-SP), que atua como produtor executivo de Dark Horse, também contradisse Flávio Bolsonaro ao afirmar que “não há um único centavo” de Daniel Vorcaro no filme. Frias declarou ainda que o projeto foi desenvolvido integralmente com capital privado e negou qualquer participação financeira do banqueiro na produção cinematográfica.

CONTRADIÇÕES

O filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, chamou atenção nesta quarta-feira (13) após a revelação de um investimento de R$ 61 milhões feito pel banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master.

Meses antes, porém, a produção havia recebido denúncias de comida estragada, alimentação insuficiente para longas jornadas de trabalho, atrasos de pagamento e revistas consideradas abusivas durante as gravações em São Paulo.

As reclamações constam em um relatório de dezembro do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED/SP). O documento reúne relatos de figurantes e técnicos envolvidos na produção do longa.

Na época, o relatório compilou 15 ocorrências formais registradas por trabalhadores por meio do canal de denúncias Reclame SATED. O material aponta que os relatos envolvem figurantes brasileiros, artistas com e sem registro profissional (DRT) e técnicos que participaram das filmagens de “Dark Horse” no estado.

No relatório, os denunciantes apontam diferença no tratamento entre o elenco estrangeiro e os figurantes brasileiros.

Enquanto a equipe principal tinha acesso a café da manhã e almoço em sistema self-service, os figurantes recebiam apenas um kit lanche com pão com frios, uma maçã, uma paçoca e um suco. Segundo os relatos, a alimentação era insuficiente para jornadas superiores a 8 horas.

O documento também registra denúncias de fornecimento de comida estragada em 30 de outubro de 2025. Parte das reclamações chegou ao sindicato por mensagens de WhatsApp.

Outros relatos apontam atrasos nos pagamentoscachês abaixo do padrão de mercadocontratação informal de figurantes por grupos de WhatsApp e pagamentos em dinheiro sem emissão de nota fiscal.

Os trabalhadores afirmaram ainda que alguns figurantes precisavam pagar R$ 10 pelo transporte até as gravações, valor que, segundo eles, era cobrado em dinheiro ou descontado do cachê ao fim da diária.

Ainda de acordo com o documento, trabalhadores denunciaram episódios recorrentes de assédio moral e condições precárias durante as gravações. Há também o relato de um figurante que afirmou ter sofrido agressão física no set. Segundo o sindicato, ele registrou um boletim de ocorrência e informou que faria exame de corpo de delito.

As denúncias também mencionam revistas pessoais consideradas invasivas. Segundo os relatos, seguranças faziam abordagens com toques em partes íntimas e nos seios dos figurantes logo na entrada das locações.

O relatório também menciona que a produção teria utilizado equipe técnica estrangeira sem recolher taxas obrigatórias previstas na Lei nº 6.533/78, que regulamenta as profissões artísticas e técnicas no setor audiovisual.

Segundo o documento, nem o SATED/SP nem o SINDICINE registraram pagamentos pela contratação desses profissionais. O sindicato também apontou a ausência de envio de contratos para obtenção do visto obrigatório das entidades sindicais.

O SATED/SP destacou no relatório que não faz acusações diretas contra a produção e que os relatos serão apurados pelas autoridades competentes, com garantia de contraditório e ampla defesa às partes envolvidas.

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